Título: Um Estranho Sonhador
Título Original: Strange the Dreamer
Autor: Laini Taylor
Série: Strange the Dreamer #1
Páginas: 544
Ano: 2019
Editora: Universo dos Livros
Sinopse: O sonho escolhe o sonhador, e não o contrário – e Lazlo Estranho, órfão de guerra e bibliotecário júnior, sempre temeu que seu sonho tivesse escolhido mal. Desde os cinco anos, ele era obcecado pelos mistérios de Lamento, uma cidade mítica perdida. O que aconteceu lá duzentos anos atrás que a separou do restante do mundo? Que tipo de deuses existiam lá e foram mortos pelo Matador de Deuses? Essas respostas o aguardam em Lamento, mas também mais mistérios – incluindo a deusa de pele azul que aparece nos sonhos de Lazlo.
Neste romance de tirar o fôlego – indicado para sonhadores dispostos a se aventurar em mundos mágicos, repletos de personagens marcantes e seus conflitos emocionais –, a sombra do passado é tão real quanto os fantasmas que assombram a cidadela de divindades assassinadas.
Aventure-se em um mundo mítico de horror e maravilha, mariposas e pesadelos, amor e massacre.


No segundo Sabá da décima segunda Lua, na cidade de Lamento, uma garota caiu do céu.

A trilogia Feita de Fumaça e Osso é uma das minhas fantasias favoritas da vida. Desde esses livros, meu amor pela Laini Taylor é incondicional. Pois em Um Estranho Sonhador ela conseguiu levar esse sentimento para outro nível.

A escrita da Laini te envolve desde a primeira página da história. Ela sempre teve uma cadência bem poética e com uma fluidez que você nem vê as páginas passando. Nesse livro, o toque de inocência, esperança e sonhos só melhorou o que já era maravilhoso.

[...] você deve saber que existe uma diferença entre estar viva e ter uma vida.

Muito difícil você, seja homem ou mulher, não se identificar com Lazlo. Lazlo é a representação de todos os leitores, que se perdem nas páginas de livros e sempre estão ávidos a garantir mais conhecimento. Lazlo Estranho é uma alma bondosa e altruísta, que não deseja fama e nem sucesso; para Lazlo, o importante é o conhecimento adquirido. Nesse caso, sua única ambição é descobrir o nome esquecido da cidade de Lamento.

Proíba um homem de alguma coisa e ele a anseia como a salvação de sua alma, ainda mais quando aquela coisa é a fonte de riquezas incomparáveis.

Sarai é uma doce alma dividida e conflituosa. A nossa musa dos pesadelos viu e sofreu o que os habitantes de Lamento fizeram com sua família, assim como ela viu o terror que os deuses puseram a cidade durante anos e anos. Seu único desejo é a liberdade de poder ver além dos muros da cidadela suspensa que ela mora.

– Beijo dezenas de pessoas toda noite. [...] Bem aqui. Homens, mulheres, bebês e avós. Eu os beijo e eles tremem. [...] Eu os beijo e eles se entristecem.

Muitos podem achar o início do livro um pouco lento. Bem detalhadamente somos apresentados a Lazlo e Sarai e suas vidas interligadas por conta de uma cidade. Adorei essa construção, que deu tempo para nos apegarmos e entendermos os dois personagens. Quando finalmente se encontram, percebemos o quão parecidos e, ao mesmo, diferentes eles são. Ambos sonham com um mundo onde deuses e humanos vivam em conjunto. Enquanto Lazlo acredita que é possível, Sarai compreende o medo de ambas as espécies sabe que isto é quase para um sonho impossível.

E é assim que você segue em frente. Você dá risada das partes sombrias. Quanto mais partes sombrias, mais você tem de rir. Com rebeldia, com despreocupação, com histeria, da forma como puder.

Alguns reclamaram que o sentimento que nasceu entre Lazlo e Sarai foi muito instalove. Quem me conhece, sabe que eu abomino esse tipo de narrativa, mas aqui foi o que deixou a relação entre os dois mais encantadora. Os próprios personagens não sabem se o sentimento é realmente amor, mas têm a concepção que há uma ligação entre ambos. Uma ligação tão linda e sensível que até eu, com meu bloco de gelo no peito, fiquei tocada e emocionada.


Os personagens secundários também tem seu espaço. Dentre os habitantes de Lamento, Eril-Fane é um homem atormentado pelas suas atitudes no passado, que resultaram na libertação de seu povo dos horrores submetidos pelos deuses. Muitos o veem como herói, mas no fundo ele se sente tudo, menos isso. Em sua mãe, Suheyla, Lazlo encontra uma figura materna que ele nunca teve.

– [...] Todos somos crianças no escuro, aqui em Lamento.

Já na cidadela acima de Lamento, temos os únicos sobreviventes do Massacre. Feral e sua personalidade taciturna e sedenta para entender os livros deixados para trás. Rubi, com uma personalidade tão ardente e viva quanto seu nome. Pardal, doce e introvertida com um coração cheio de bondade. E, por último, Minya, a única dos cinco a realmente se lembrar do dia que suas vidas mudaram. Seu ser é todo e completo de ódio e vingança contra os habitantes de Lamento.

Dentro de um sonho.
Dentro de uma cidade perdida.
À sombra de um anjo.
À beira da calamidade

Há medida que vai avançando na história, Laini solta informações das ações dos deuses aos habitantes de Lamento. No momento que liguei os pontos, percebi o quão desumano e traumatizante foram esses anos para os habitantes. Mas também há o lado dos sobreviventes na cidadela; jovens inocentes dos crimes de seus antepassados, mas sabem o que acontecerá caso sejam descobertos.

– Pessoas boas fazem todas as coisas que pessoas más fazem, Lazlo. Só que quando elas fazem, chamam de justiça.

Assim como Laini me conquistou na criação do universo em Feita de Fumaça e Osso, ela não me decepcionou aqui. Ao lado da magia e deuses, temos a ciência da alquimia, mas não para desmistificar o mágico; ela vem como um auxiliar. Nesse contexto, temos focos em Thyon Nero, um alquimista um tanto arrogante, mas que no fundo realmente gosta do que estuda e só quer colaborar mais e mais para o assunto.

Essa não era a frustração que alguém sente ao acordar de um sonho bom. Era a desolação de ter encontrado o lugar que encaixa, o único lugar verdadeiro, e experienciar o primeiro suspiro inebriante de estar certo antes de ser jogado para longe e atirado em uma solitária e aleatória dispersão.

Desde o prólogo eu já tinha minhas suspeitas de como esse livro poderia acabar, porém nada disso me preparou para aquele final devastador. É bem palpável toda dor e sofrimento dos personagens que você sente como se estivesse vivendo tudo aquilo. As últimas frases deixam um ótimo gancho para Muse of Nightmares (Musa dos Pesadelos, em tradução livre) e não vejo a hora de continuar essa história maravilhosa e encantadora.

– Sarai [...] Você arruinou minha língua para todos os outros sabores!